28/04/2008 - Uma notícia me fez pensar no Amor
No dia da gravação do CD do Dalvimar, nós estávamos em São Paulo, quando minha esposa me ligou e me deu uma notícia ao mesmo tempo boa e triste...
Categoria:
Música Católica
Minha filha pretendia vir trabalhar aqui pela região de Campinas. Tudo para pensar em casamento e toda essa história. A notícia boa foi que ela conseguiu um emprego e poderia então vir para cá. O triste dessa novidade foi justamente o fato de que ela viria para cá... Não estaria mais com a gente, em casa. E é a segunda vez, praticamente, que acontece isso, de um filho sair assim...
Eu comecei a pensar sobre isso e disse: _ Pôxa, minha filha vai pegar um caminho para o casamento agora, vai trabalhar, vai vir em casa de vez em quando... E eu comecei pensar quantas vezes eu deixei de amar a minha filha, quantas vezes eu podia ter conversado com ela e não fiz, quantas vezes eu podia ter acariciado minha filha e não fiz. E percebi que talvez eu nunca mais possa ter as mesmas chances. Certamente eu terei outras chances, mas aquelas que passaram... nunca mais.
Talvez a vida da gente só ensine de verdade a viver à medida que os anos passam. E agente sofre muito. Eu acho que a escola da vida, infelizmente, é na base da dor. A gente aprende muito sofrendo. Aprende ralando. Mas eu acho que, com um pouco de sabedoria, agente pode começar a repensar.
Nós estávamos vindo para cá hoje e eu estava lembrando de uma história que aconteceu na família da minha esposa. A avó dela, tadinha, casou... Num casamento daqueles, obrigada. E foi um inferno, porque ele não cuidava da família. Quando nasceu o último filho, ele não estava lá. A mulher ainda estava grávida, quando ele saiu para comprar cigarro na esquina. Quando voltou, o menino já tinha dois anos de idade. Você imagina o que é casar com um cara desses?
Essa mulher rezou por ele a vida inteirinha, foi fiel, nunca traiu, sempre bendisse a Deus pelo marido que tinha. Eu pensava comigo: como pode alguém sofrer tanto e agradecer a Deus? Quando ele morreu, tirando o amor e tudo mais, foi um alívio para a família. Ele dava muito trabalho, dava muito problema. E a dona Mariinha rezava por ele todo dia. Depois que ele morreu, continuou rezando todo dia. A gente pedia para ela rezar: _ Ô, vó, reza para a gente? E ela dizia: _ Eu vou rezar sim.
Ela aumentava um terço por dia na oração dela. Então eu pensei assim: como pode alguém que sofreu tanto, que nunca foi feliz de verdade no matrimônio, que sempre sofreu as loucuras de um cara doido, viver assim? Hoje eu vejo casaizinhos que não conseguem se entender no primeiro ou segundo anos de casamento.
Eu acho que a gente precisa reaprender a ralar um pouco na vida. A gente precisa aprender que, às vezes, morrer um pouco para si próprio talvez seja a semente que precisa ser plantada no nosso coração, para conseguirmos ser felizes na enfermidade. Talvez a árvore que Deus quer plantar na eternidade seja semeada no jardim da dor, da renúncia e do sofrimento. Talvez você conheça caminhos melhores, talvez existam mil mulheres melhores do que a sua e mil maridos melhores do que o seu, mas que seja seu, só tem um; que seja sua, só há uma.
Por isso, não adianta você ficar sonhando com a felicidade tão longe, porque a a sua felicidade talvez esteja na sua cruz. O ponto alto da passagem de Deus pela face da Terra foi a cruz. Morrendo nela, ele pôde mostrar aquilo que era dele: a ressurreição. Talvez, morrendo um pouco para a sua falta de perdão, morrendo para o orgulho que te faz dizer: “Para o meu pai eu nunca mais peço perdão” ou “depois do que minha mãe falou, nunca mais volto para casa”.
Para vocês, pais e mães, que dizem: “só quando o meu filho fizer isso ou aquilo, eu perdôo”, eu digo não! Perdoem independente de qualquer coisa. Eu vivi uma situação em que eu não fiz nada e me interpretaram errado. Para mim foi terrível, porque a pessoa nem me recebia para conversar. Eu não tinha como esclarecer a situação, a pessoa não falava comigo e, como eu não conseguia falar com ele, consegui conversar com a mulher dele e ela colocou as coisas a limpo. Eu também coloquei tudo a limpo. No fim, ela disse assim: “eu te peço perdão, em nome de toda a minha família”. Eu disse: “eu também te peço perdão por tudo o que eu possa ter feito, mesmo que inconscientemente, mesmo que dando chance de você entender errado”. E ela respondeu: “eu te perdôo em nome de toda a minha família”. E eu também falei: “eu também te perdôo”.
Depois de mais de um ano, foi o primeiro dia que eu consegui ficar em paz de verdade. Às vezes, agente pensa que tem paz, mas às vezes um perdão, uma coisa besta dessa, faz você desacostumar com o caminho do amor e da paz.
Eraldo Mattos